"É bom ter uma motivação em torno de uma jornada, mas, ao final, é a jornada em si que importa" – A Mão Esquerda da Escuridão; Le Guin, Ursula K.

Le Guin discursa ao receber a Medalha de Distinção pela National Book Awards, 2014.


Falecimento de Ursula Le Guin

(21/10/1929 – 21/01/2018)
“É bom ter uma motivação em torno da qual traçar uma jornada, mas, ao final, é a jornada em si que importa”
– A Mão Esquerda da Escuridão; Le Guin, Ursula K.

Ursula K. Le Guin, uma autora imensamente popular que trouxe uma profundidade literária e sensibilidade feminista obstinada aos gêneros de fantasia e ficção. Escritora de Livros como “A Mão Esquerda da Escuridão” e “O feiticeiro de Terramar” (série de 5 livros), faleceu nessa segunda-feira, dia 22/01/2018, aos 88 anos, em sua casa em Portland (Ore, EUA). Seu filho, Theo Downes-Le Guin, confirmou a morte. Ele não especificou a causa, mas afirmou que ela vinha apresentando um quadro de saúde debilitado nos últimos meses.

Atendendo à pedidos, a equipe do velho crânio reuniu mais informações sobre a vida e a obra da autora. Àqueles que não tiveram oportunidade de conhecê-la antes, encontrarão aqui um gentil convite para se aproximarem da autora e de sua extensa obra. O texto foi expandido de uma tradução livre da nota de falecimento publicada na seção obituário do New York Times. [1]

 

 

Le Guin e seu gato Lorenzo em casa, 1996

Le Guin e seu gato Lorenzo em casa, 1996


A vida da autora

“A única coisa que torna a vida possível é permanente, intolerável e incerto: não saber o que acontecerá a seguir”
– Le Guin, Ursula K.

Nascida Ursula Kroeber em Berkeley (California), no dia 21 de outubro de 1929, era a caçula de quatro irmãos e filha de dois antropólogos, Alfred L. Kroeber e Theodora Quinn Kroeber. Seu pai foi um especialista em Nativos Americanos da Califórnia e sua mãe escreveu o aclamado livro “Ishi in Two Worlds” (1960), sobre a vida e a morte do “do último índio selvagem” da Califórnia.

Le Guin mergulhou desde muito cedo em livros sobre mitologia, dentre os quais “O Ramo de Ouro” de James Franzier; clássicos da fantasia como “A Dreamer’s Tales” de Edward J. P. Dunsany; e os contos das revistas de ficção científicas das bancas. Mas no início da sua adolescência ela perdeu o interesse na ficção científica, porque, como ela lembra, as histórias “pareciam ser todas sobre hardware e soldados. O homem branco marchando em frente e conquistando o universo.”

Ela graduou-se em 1951 no Radcliffe College; em 1952, recebeu um título de mestrado em Literatura Medieval e da Renascença pela Universidade de Columbia e ganhou uma bolsa de estudos em Paris. Uma vez lá, ela conheceu e se casou com o brilhante acadêmico, Charles Le Guin. Ao retornar aos Estados Unidos, ela abandonou seus estudos para constituir família. Eventualmente sua família se estabeleceu em Portland e o Sr. Le Guin passou a lecionar história na Universidade Estadual de Portland. Além do marido, Ursula deixou duas filhas, Caroline e Elisabeth Le Guin; dois filhos Theodore e Clifton Kroeber; e quatro netos.

 

 


Capas das edições em português de alguns dos títulos da escritora

Capas das edições em português de alguns dos títulos da escritora

A Produção Literária – Da Fantasia à Ficção

“(…) Contadores de histórias e poetas dedicam suas vidas a aprender o ofício e a arte de usar apropriadamente as palavras. As palavras deles fazem da alma de seus leitores mais forte, brilhante e profunda”
– Le Guin, Ursula K.

Ursula Le Guin contribuiu para as bases dos temas sobre os quais escolheu escrever: feitiçaria e dragões, espaçonaves e conflitos planetários. Mesmo quando seus protagonistas eram do sexo masculino, ela evitou a postura machista que hoje percebemos em muitos heróis de ficção científica e fantasia. Os conflitos enfrentados por seus protagonistas são tipicamente baseados no conflito de culturas, resoluções mais conciliadoras e como sacrifício pessoal, ao invés do encontro das lâminas ou da batalha de naves.

Seus livros foram traduzidos em mais de 40 línguas e venderam milhões de cópias ao redor do mundo. Vários deles, incluindo “A Mão Esquerda da Escuridão” – ambientado em um planeta onde as definições de gênero tradicionais não se aplicam – continuaram tendo novas impressões por pelo menos 50 anos. O crítico Harold Bloom enalteceu a Sra. Le Guin como “uma mente de criatividade e estilo proeminentes” que “elevou a fantasia a condição de alta literatura para o nosso tempo”.

No início dos anos 60, ela tinha escrito cinco livros não publicados, a maior parte era ambientada num país imaginário da Europa Central, denominado Orsinia. Buscando produzir algo mais palatável para o mercado, resolve experimentar sua escrita na ficção. Seu primeiro romance de ficção científica “O Mundo de Rocannon” foi publicado nos Estados Unidos em 1966 (e no brasil em 77). Dois anos mais tarde ela publicou o primeiro livro da série de Terramar, “O Feiticeiro de Terramar”, ambientado num mundo fictício onde a prática da magia era tão precisa e moralmente ambígua quanto a nossa ciência.

Os primeiros três livros da série de Terramar – além do citado acima, “Os Túmulos de Atuan” (1971) e “A Praia mais Longínqua” (1972) – foram escritos, a pedidos do seu editor, para o público infanto-juvenil. Mas sua grande extensão e estilo elevado não são em nada desmerecidos pelo foco a esse público. A magia de Terramar é conduzida pela linguagem, pois os Feitceiros ganham poder sobre as pessoas e coisas por conhecer seus “nomes verdadeiros”. Le Guin levou a sério o processo de nomear seus personagens, “Preciso encontrar o nome apropriado ou eu não consigo continuar com a história”, ela disse. “Não posso escrever essa história se o nome estiver errado”.

A série de Terramar foi claramente influenciada pela triologia de “O Senhor dos Anéis” de J. R. R. Tolkien. Mas ao invés de uma guerra sagrada entre as forças do Bem e do Mal, as histórias de Le Guin são organizadas em torno da busca pelo “equilíbrio” entre as forças em conflito – um conceito derivado de seu estilo de vida de estudo dos textos Taoistas. Ela retornou mais tarde a série de Terramar, estendendo e aprofundando seu universo com os livros: “Tehanu, o Nome da Estrela” (1990) e “Num Vento Diferente” (2001), escritos para o público em geral.

“A Mão Esquerda da Escuridão”, publicada em 1969, se passa em um planeta chamado Gethen, onde as pessoas não são nem do gênero masculino nem do feminino, mas assumem atributos de ambos os gêneros durante breves períodos de ardor reprodutivo. Falando com uma frieza antropológica, Le Guin se referiu mais tarde ao seu romance como um “experimento intelectual” desenvolvido para explorar a natureza das sociedades humanas.

“Eu eliminei o gênero para descobrir o que sobrava”, disse ao The Guardian.

Mas não há nenhuma frieza no relacionamento que existe no núcleo da história, o romance de um nativo andrógino de Gethen e um homem humano da Terra. O livro ganhou dois grandes prêmios da ficção cientifica, Hugo e Nebula, e foi amplamente indicado em Escolas e Faculdades.

Maior parte da escrita ficcional de Le Guin tem uma base comum: Uma confederação de planetas conhecidos como Ekumen. Essa estrutura foi fundada pelos antigos humanos enviados para semear planetas habitáveis através da galáxia – incluindo Gethen, Terra e os planetas Gêmeos do seu romance mais ambicioso, “Os despossuídos” (1974), cujo subtítulo da publicação original era “uma ambígua utopia”. Conforme o subtítulo sugere, “Os despossuídos” contrasta duas formas de organização social: uma confusa, mas vibrante sociedade capitalista que oprime as camadas mais pobres, em oposição à desorganizada “utopia” (parcialmente baseada em ideias do anarquista russo, Peter Kropotkin), que acaba por ser opressiva ao seu próprio modo conformista. Le Guin deixa a cargo do leitor encontrar um equilíbrio confortável entre os dois.

Em “O Tormento das Trevas” somos levados à uma diferente e ambiciosa utopia. Um homem cujos sonhos podem alterar a realidade acaba sob influência de um psiquiatra. Este último usurpa tal poder para conjurar sua própria visão de um mundo perfeito, com resultados lamentáveis, é claro. “O Tormento das Trevas” está entre os poucos livros da autora que foram adaptados para cinema ou televisão. Existem duas versões para TV, uma pela PBS em 1980 e outra da A&E em 2002. Entre as demais adaptações do seu trabalho estão “Contos de Terramar” (2006), uma animação japonesa, e “A Lenda de Terramar” (2004), uma minissérie produzida pelo canal Sci Fi. Com exceção da versão de 1980 da PBS, Le Guin não teve bons comentários a fazer sobre nenhuma das adaptações.


Le Guin recebe medalha de Neil Gaiman

Le Guin recebe medalha de distinção por sua contribuição à literatura americana das mãos de Neil Gaiman

Obra e Legado

“Você não pode comprar a Revolução. Você não pode fazer a Revolução. Você pode, apenas, ser a Revolução. Ela está no seu espírito, ou não está em lugar nenhum.”
– Le Guin, Ursula K.

Além dos mais de 20 romances, a escritora fez dúzias de livros de poesia, mais de 100 histórias curtas (reunidas em múltiplos volumes), sete coleções de ensaios, 13 livros para crianças, traduziu cinco livros, incluindo o Tao Te Ching de Lao Tzu e selecionou poemas de Gabriela Mistral, Chilena ganhadora do prêmio Nobel. Ela também escreveu um guia para escritores. A escrita de Le Guin abrange de ficção infanto-juvenil a fábulas complexas e filosóficas. Seus textos combinam histórias envolventes, uma lógica narrativa rigorosa e um estilo simples, mas eloquente que arrasta os leitores ao que ela chamava de “terras ocultas” da imaginação. Tal escrita, ela acreditava, poderia ser uma força moral.

“Se você não pode ou não imaginará os resultados das suas ações, então não há como você agir com moral e responsabilidade”, afirmou ao The Guardian em uma entrevista em 2005. “Pequenas crianças não conseguem fazê-lo, bebês são moralmente monstruosos – completamente gananciosos. A imaginação deles precisa ser desenvolvida para que tenham precaução e empatia”. “O dever agradável” do escrito, disse, é de brindar a imaginação do leitor com “o melhor e mais puro alimento que ele possa absorver”.

Le Guin sempre se considerou feminista, mesmo quando as convenções de gênero à levaram a centrar seus livros em heróis masculinos. Seus trabalhos tardios, como os contos adicionados a série Terramar, “O Dia do Perdão” (1995) e “The Telling” (2000), são majoritariamente contados a partir de uma perspectiva feminina.

Na conferência da National Book Awards de 2014, Le Guin foi premiada com uma medalha de distinção pela contribuição à literatura americana [12]. Ela aceitou a medalha ao lado de seus colegas escritores de fantasia e ficção científica, onde afirmou ter sido “excluída da literatura por muito tempo”, enquanto a literatura os “assim chamados realistas”. Em seu discurso ela também instou editores e escritores a não dar centralidade aos lucros.

“Eu tive uma longa e boa carreira”, ela disse, “Aqui, no final dela, eu não quero assistir à literatura americana sendo traída”.


Declarações:

Acabo de tomar conhecimento do falecimento de Ursula K. Le-Guin. Suas palavras estarão para sempre conosco. Algumas das quais estão escritas em minha alma. Sinto saudades da sua pessoa gloriosamente divertida e também como a mais profunda e inteligente das escritoras. Sinto-me honrado por ter feito isso: (entrega da medalha da citada no artigo).

Acabo de tomar conhecimento do falecimento de Ursula K. Le-Guin. Suas palavras estarão para sempre conosco. Algumas das quais estão escritas em minha alma. Sinto saudades da sua pessoa gloriosamente divertida e também como a mais profunda e inteligente das escritoras. Sinto-me honrado por ter feito isso: (entrega da medalha da citada no artigo).

 

Ursula K. LeGuin, uma das melhores, faleceu. Não uma simples escritora de ficção científica; um ícone da literatura. Vá com deus rumo à galaxia.

Ursula K. LeGuin, uma das melhores, faleceu. Não uma simples escritora de ficção científica; um ícone da literatura. Vá com deus rumo à galaxia.

 


Notas do Tradutor

[1] Esse artigo é uma tradução e reedição livre do artigo “Ursula K. Le Guin, Acclaimed for Her Fantasy Fiction, Is Dead at 88”, escrito por Daniel E. Slotnik e publicado por Geral Jorna, na coluna Obituaries do The New York Times, em 23 de Janeiro de 2018.

O texto original está disponível em: https://www.nytimes.com/2018/01/23/obituaries/ursula-k-le-guin-acclaimed-for-her-fantasy-fiction-is-dead-at-88.html e foi acessado em 24/01/2018 às 00:20.

[2] O Ramo de Ouro foi o nome dado no Brasil ao livro “The Golden Bough” (1980). A edição brasileira foi traduzida por Waltensir Dutra e seu prefácio escrito pelo Prof. Darcy Ribeiro, lançado pela Zahar Editores, 1982.

[3] O Mundo de Rocannon foi o nome dado no Brasil ao livro “Rocannon’s World” (1966). Lançado aqui pela Editora Ediouro/Tecnoprint, 217 páginas, 1977.

[4] O Feiticeiro de Terramar foi o nome dado no Brasil ao livro “A Wizard of Earthsea” (1968). Não consegui identificar o ano de lançamento, mas a última edição é da Editora Arqueiro lançou uma edição do livro, tradução de Ana Resende, 176 páginas, 2016.

[5] “Tehanu, o Nome da Estrela” foi o nome dado no Brasil ao livro “Tehanu: The Last Book of Earthsea” (1990), vencedor do prêmio Nebula (1990) e Locus (1991). Editorial Presença (Portugal), 224 pg., 2004

[6] “Num Vento Diferente” foi o nome dado no Brasil ao livro “The Other Wind” (2001), vencedor do World Fantasy Award (2002). Editora Presença II (Portugal), 188 páginas, 2005.

[7] “A Mão Esquerda da Escuridão” foi o nome dado no Brasil ao livro “The Left Hand of Darkness” (1969), vencedo do prêmio Hugo (1969) e Nebula (1970). Editora Aleph, 2ª Ed., 296 páginas, 2014.

[8] “Os despossuídos” foi o nome dado no Brasil ao livro “The Dispossessed: An Ambiguous Utopia” (1974), vencedor dos prêmios Nebula (1974), Hugo (1975) e Locus (1975). Editora Aleph, 1ª Ed., 384 páginas, 2017.

[9] “O Tormento dos Céus” foi o nome dado no Brasil ao livro “The Lathe of Heaven” (1971), vencedor do prêmio Locus (1972) e adaptado para TV como longa-metragem pela PBS (1880) e A&E (2002). Editorial Presença (Portugal), 1ª Ed., 180 páginas, 2004.

[10] “O Dia do Perdão” foi o nome dado no Brasil ao livro “Four Ways to Forgiveness” (1995). O livro é uma coletânea de quatro contos interligados, eles são ambientados nos planetas Yeowe e Werel. Editorial Presença (Portugal), col. nº 18, 240 páginas, 2004.

[11] O livro “The Telling” não foi lançado no Brasil até o presente momento, por isso não foi indicado um título em português para o mesmo.

[12] Medal for Distinguished Contribution to American Letters, National Book Awards, 2014.

 

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Pedro Feio
Colunista em O Velho Crânio
Biólogo (e Professor nas horas vagas), sou RPGista desde os longínquos anos da “aborrescência” e sempre tive predileção por jogos de fantasia medieval ou horror. Sistema favorito é, atualmente, Savage Worlds, mas não fujo à partidas de nenhum sistema, exceto, é claro, Fatal.